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" "Se tivessem feito essa peregrinação instrutiva, verificariam que o servilismo intelectual é no homem um vício irredutível, e que por mais que se facilite o largo e livre exercício da razão, e que se lhe ensine a sacudir o despotismo dos oráculos - sempre ele por instinto, por covardia, por indolência, por desconfiança de si próprio, abdicará do direito de pensar originalmente e se submeterá com prazer, com alívio, a toda a autoridade, que, à maneira de um pastor entre um rebanho, se erga, toque a buzina e lhe aponte um caminho com o cajado. Realmente a humanidade é gado - e o primeiro movimento de toda a cabeça livre é pender para o sulco aberto, enfiar para debaixo da canga.
José Maria de Eça de Queiroz (or Eça de Queirós) (November 25, 1845 – August 16, 1900) was a Portuguese novelist, short-story writer, travel-writer, critic and diplomat. His novels, which are often compared to those of Balzac, Flaubert and Zola, satirize the Portuguese bourgeoisie and priesthood.
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Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua teoria da vida, a teoria definitiva que ele deduzira da experiência e que agora o governava. Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear... Não se abandonar a uma esperança – nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada que se chama o Eu ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo... Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades.
Escutava, com a cabeça apoiada à mão: aqueles sons entravam-lhe na alma com a doçura de vozes místicas que a chamavam: parecia-lhe que ia ser levada por elas, se desprendia de tudo o que era terrestre e agitado, se achava numa praia deserta, junto ao mar triste, sob um frio luar - e ali, puro espírito, livre das misérias carnais, rolava nas ondulações do ar, tremia nos raios luminosos, passava sobre as urzes nos sopros salgados...